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OS NÚMEROS DA DESIGUALDADE


Para explicar o resultado da pesquisa do IBGE, o Bom Dia Brasil entrevistou o sociólogo José Augusto Rodrigues, pesquisador da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Bom Dia Brasil: Professor, afinal, escolaridade diminui ou não diminui as diferenças entre negros, pardos e brancos? José Augusto Rodrigues: Em primeiro lugar, escolaridade melhora as condições do indivíduo, já que ele se localiza de uma maneira positiva no mercado de trabalho e obtém ganho salarial, ou seja, a elevação de escolaridade significa ganho de rendimento no geral.

A questão é a desigualdade. Se você aumenta sua escolaridade, mas é negro ou pardo, segundo o IBGE, diminuem suas chances de ganhar mais. Isso se comparado à pessoa branca, homem ou mulher. Se você é mulher, o aumento de escolaridade melhora um pouco a sua posição salarial, mas sua posição no mercado de trabalho não é a mesma de um homem branco. Bom Dia Brasil: As pesquisas mostram que as mulheres ganham menos do que os homens, apesar de terem maior escolaridade. Isso vem de encontro com o que o senhor está falando... José Augusto Rodrigues: É muito difícil conseguir explicar exatamente o que produz a desigualdade.

É fácil mapear a desigualdade como um fenômeno. Agora, o que produz a desigualdade é difícil de definir. Bom Dia Brasil: Ou seja, a escolaridade ajuda, mas não é tudo... José Augusto Rodrigues: A escolaridade ajuda, mas não é tudo. O que persiste é a existência da desigualdade. Bom Dia Brasil: Essa desigualdade tem, então, raízes mais profundas, segundo o estudo do IBGE. Raízes que são discriminação, má distribuição de renda... É perverso o sistema da sociedade brasileira? José Augusto Rodrigues: Sem sombra de dúvidas, sim. Focando especificamente o caso das pessoas negras, o que fica patente é que algum mecanismo de discriminação contra pessoas negras funciona sistematicamente de maneira continuada na sociedade brasileira, ou seja, existe uma forma de desigualdade e discriminação que é permanente na sociedade brasileira, ao longo da sua formação histórica. Esse é o problema... O outro problema seria como fazer para quebrar esse ciclo reprodutivo da desigualdade.

FONTE: Jornal Bom Dia Brasil – 13.06.2003


PERFIL BRASILEIRO


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, divulgou ontem a síntese de indicadores sociais 2002, uma pesquisa que traça o perfil sócio-econômico da sociedade brasileira. São números sobre renda, trabalho, saúde, raça e educação no país. As pesquisas mostram que mais da metade dos trabalhadores não contribui para a Previdência e não tem direito a nenhum benefício, como aposentadoria e pensão. Ao mesmo tempo, a população está ficando mais velha e as famílias ficam menores. Segundo a pesquisa, 45,7% não têm seguridade social e os que trabalham por conta própria são os que menos contribuem para a Previdência: só 14,9%. Além disso, a população está mais velha. A proporção de pessoas de 60 anos ou mais passou de 7,9% em 1992 para 9,1% em 2001. A estimativa é de que, em 2030, o número chegue a 16%. Desde 1940, a percentagem de idosos duplicou. Ao mesmo tempo, as famílias estão menores, principalmente, nas grandes cidades, e a taxa de filhos por mulher caiu de 2,7% para 2,4%. A pesquisa também mostra os efeitos da desigualdade e da discriminação racial.

Mostra também que nem sempre a escolaridade é suficiente para mudar este quadro. Por exemplo, negros ou pardos com 12 ou mais anos de estudo ganham 70% do que ganham as pessoas brancas. Desigualdade também entre homens e mulheres: as mulheres ganham em média 57% do que ganham os homens com o mesmo tempo de estudo. No topo da pirâmide social, no grupo 1% mais rico, apenas 12% são pardos ou negros. No outro lado da pirâmide social, entre os 10% mais pobres, sete em cada dez pessoas são pardos ou negros.


FONTE: Jornal Bom Dia Brasil – 13.06.2003