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Domésticas na Real

O trabalho doméstico é o primeiro emprego para garotas que moram na periferia. Em Salvador, são 12 mil adolescentes entre 14 e 17 anos. Cerca de 93% são negras.

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“Não é uma opção, é uma fase, porque, para sobreviver, nós precisamos trabalhar”, diz Ana Claúdia dos Santos, 19. São cinco milhões de mulheres brasileiras trabalhadoras domésticas no país (Unicef), muitas adolescentes. Como Ana Cláudia, que começou aos 15: “Tomava conta de duas crianças, a pessoa morava no meu bairro (Mirantes de Periperi).”

Trabalhar aos 15 anos é proibido no Brasil. Juliana Assis, 18, também arrumou um emprego na hora errada. Aos 13 anos tomava conta da filha de uma vizinha no bairro do Lobato. Na mesma época e bairro, Lúcia Carvalho alternava o trabalho na casa de uma família com a mãe.

Apesar da rotina puxada, as três não pararam de estudar. O que não é o mais comum: apenas 51% das crianças e adolescentes trabalhadoras domésticas freqüentam a escola. Um problema para acompanhar as aulas: falta de tempo para estudar e a patroa que não respeita os horários. Resultado: 1/4 das adolescentes que trabalham como domésticas estão atrasadas no colégio.

Mas esse é só mais um problema. O mais grave, na opinião das meninas, é o assédio sexual: “Muitos patrões pensam que a empregada é objeto, não importa o tipo”, denuncia Juliana. As meninas sabem que não devem atender às propostas do patrão, que devem sair do emprego e ir a uma delegacia prestar queixa. Mas aí elas avisam: “Às vezes, é complicado provar o assédio, porque foi dentro da casa do patrão”. Lúcia faz uma pergunta difícil: “Quem é que vai testemunhar contra ele, dentro da casa, que só mora a família dele?”.

Trabalho invisível

Ana Cláudia reivindica: “As patroas deviam enxergar as empregadas como seres humanos, nós não somos máquinas de lavar, passar, cozinhar. Precisamos viver bem também”. A psicopedagoga do Ceafro*, Isabelli Pereira, 28, diz que o pior é a exclusão que esse tipo de trabalho expõe as meninas: “Elas não podem ter amigos, namorado, pertences próprios ou circular pela cidade”.
“Elas acham que porque a gente trabalha ali, depende um pouco delas, podem nos tratar como um objeto qualquer sem nenhuma importância”, diz Juliana.

Os filhos dos patrões não agem de forma diferente. Lúcia: “Geralmente, eles têm a mesma visão dos pais: é a empregada que está ali para fazer as coisas”. A psicopedagoga lembra da história: “O trabalho doméstico é um dos resquícios mais fortes da escravização dos negros. Um exemplo típico de como foi ruim esse modo de sustentar a economia”.

É o que ficou para Ana Claúdia, Lúcia e Juliana: a idéia errada de que as negras devem fazer trabalhos braçais – lembra do “ensaboa, mulata, ensaboa?”. “Mas, enquanto as brancas queimavam sutiãs em praça pública, havia negras cuidando dos filhos delas em casa”, provoca Isabelli.

A carne mais barata

“Domésticas sim, e daí?” é o título que Ana Cláudia escolheu para a peça em que atua junto com Lúcia, Juliana e mais nove meninas. A peça faz parte do projeto “Ampliando Direitos e Horizontes” – uma experiência com adolescentes trabalhadoras domésticas. Uma cena emocionante: elas fazem relatos de trabalhadoras de todo o país em intervalos da música “A Carne” (Seu Jorge – Marcelo Yuka – Wilson Cappellette) cantada por Elza Soares (“Do Cóccix até o Pescoço”/2002), que diz: “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. A peça tem direção do ator Jorge Washington e está rodando escolas municipais, associações e ONGs da cidade.

Plano B

Das 200 moças entre 16 e 21 anos que participam do projeto do Ceafro, nenhuma tinha a carteira de trabalho assinada e, dentre elas, o maior salário era de R$ 100.

No projeto, elas tiveram acesso a formação técnica, informática, telemarketing e formação básica. Lúcia: “A maioria das meninas que está aqui não quer continuar como doméstica, a gente tem várias opções e vai lutar para conseguir reverter”. Saldo positivo para Isabelli: “O projeto muda a perspectiva: faz com que elas se joguem em direção ao vestibular”.

Escravas do lar?

A socióloga e pesquisadora Marlene Vaz é autora do livro “A Menina e a Casa – A Identidade Coletiva da Menina Empregada Doméstica”. Ela diz que é na relação entre patrões e empregadas que se percebe que há um apartheid entre pobres e ricos no Brasil. Saiba mais.

Dez! - Para as adolescentes, o que
é mais grave no trabalho doméstico?


Marlene Vaz - Primeiro, a menina sofre ao se separar da família e, depois, com as limitações na casa onde trabalha. Subordinada a fatores que conspiram para que ela não consiga construir uma identidade coletiva. Isto significa que será uma adulta limitada, jamais uma cidadã de profissão e de vida pública.

Dez! - O que significa este tipo de
trabalho para a economia?


Marlene - Para que uma pessoa possa trabalhar numa profissão pública, alguém tem que lavar, passar, limpar, cozinhar. Assim, o trabalho doméstico existe para cuidar da força de trabalho pública, o que lhe agregou o conceito de não-trabalho, daí somente ser regulamentado por lei, no Brasil, há pouco tempo. Enquanto nos países do primeiro mundo, o emprego doméstico tende a desaparecer, a cultura brasileira insiste em perpetuá-lo.

Dez! - Como diminuir o
preconceito contra as meninas
trabalhadoras domésticas?


Marlene - É preciso conscientizar a sociedade de que esse trabalho não se trata de um favor que a patroa está fazendo. Um exemplo de um preconceito que deve ser denunciado: a ideologia da higienização cultivada com orgulho pela patroa, considerando que as meninas, na maioria mestiças e negras, precisam passar por um ritual exorcista de limpeza do corpo, porque a elite sente-se perturbada com o odor da miséria, sente medo de que aquela pobre que vem de um casa miserável contamine seu lar. Outra segregação é de que a menina “permaneça no seu lugar”, não tome assento no sofá, use um banco da cozinha para ver televisão e em nenhuma ocasião escolha o programa, use o elevador de serviço, a não ser quando transite com os filhos da patroa.

Dez! - Como garantir seus
direitos trabalhistas?


Marlene - Crianças até 12 anos não podem trabalhar, aos 13 anos vivem a condição de aprendiz, como determinam a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. Mesmo assim, os playgrounds dos prédios estão cheios de crianças “tomando conta” de crianças. Seria ingênuo acreditar na viabilidade de uma fiscalização legal na casa empregadora, pois as meninas têm donos. Só resta a conscientização dos patrões, informação e orientação para as meninas trabalhadoras e suas mães.

Dez! - O que torna a relação
entre patrões e trabalhadoras
domésticas tão complexa?


Marlene - É na nessa relação que se percebe que no Brasil há um apartheid entre pobres e ricos. Quando um bem material desaparece, a tendência é culpá-la do furto, pois onde tem uma menina trabalhadora doméstica os demais estão acima de qualquer suspeita. Porém, não raro os patrões e/ou seus filhos abusam sexualmente das meninas, e se descobertas ou se engravidam, não perdem o emprego, “são postas pra fora”.